PELO DIREITO INALIENÁVEL DE SURTAR !


ando só
pois só eu sei
pra onde ir
por onde andei
ando só
nem sei por que
não me pergunte
o que eu não sei

pergunte ao pó
desça o porão
siga aquele carro
ou as pegadas que eu deixei
pergunte ao pó
por onde andei
há um mapa dos meus passos
nos pedaços que eu deixei

desate o nó
que te prendeu
a uma pessoa que nunca te mereceu
desate o nó
que nos uniu
num desatino
um desafio

ando só
como um pássaro voando
ando só
como se voasse em bando
ando só
pois só eu sei andar
sem saber até quando
ando só

humberto gessinger


O ciúme dói nos cotovelos,
na raiz dos cabelos,
gela a sola dos pés.

Faz os músculos ficarem moles,
e o estômago vão e sem fome.
Dói da flor da pele ao pó do osso.
Rói do cóccix até o pescoço
Acende uma luz branca em seu umbigo,
Você ama o inimigo e se torna inimigo do amor.
O ciúme dói do leito à margem,
dói pra fora na paisagem,
arde ao sol do fim do dia.

Corre pelas veias na ramagem,
atravessa a voz e a melodia.

caetano veloso


Eu acredito da permissão do amor.

Acredito que nós nos permitimos amar, que permitimos alguém entrar em nossas vidas, por terem características tais que mereçam receber o que chamamos de amor. Independente de quem seja.

É claro que isso não é consciente, muito menos racional.

E quando a dor do rompimento e da rejeição gera raiva, rancor, ciumes, desejo de posse, e invariavelmente obsessão, isso é qualquer coisa, menos amor.

É claro que isso é só racionalização.
Mas eu não conheço maneira melhor de um sentimento aumentar do que sentindo. E maneira melhor de um sentimento acabar do que pensando.


Eu sofro do que chamo de ressaca pós-multidão.

Acho que o sentimento de inadequação é tão grande que, quanto mais gente, maiores os parâmetros de comparação para se sentir deslocado. Mesmo entre amigos, mesmo entre conhecidos. Há um momento da noite que irei brincar de ilha. E no dia seguinte sempre bate a tal ressaca.

Especialmente se estou encarando uma multidão esperando atenção de uma pessoa.

Ai se não respirar fundo e contar ate dez, é pânico na certa. Sempre fico comparando, que os outros se divertem mais, que tem mais atenção, que os assuntos são melhores, que dançam mais e melhor (isso é verdade), que tem mais atenção das mulheres (isso com certeza é verdade). Pra variar presto mais atenção nos outros do que em mim, e óbio, não posso aproveitar a festa pq não estou lá. Mas também quando estou concentrado no meu momento, uma hora acho que estou perdendo todos aqueles momentos que não estou participando.

Pra mim, cinco pessoas já é multidão.

Pq acima desse numero fica bem mais dificil ter atenção de todo mundo ao mesmo tempo.

E sempre que me sinto deslocado e inadequado tenho uma vontade louca de ler, aprender, escrever alguma coisa. Como se em alguma teoria morasse as respostas para o que estou sentindo naquele momento. Quantas vezes não parei numa banca, altas da madrugada, para comprar um revista bem “cabeçuda” e teórica. O mais engraçado é que sempre funciona.

Acho que já esta na hora de perceber que o que preenche o meu vazio não é corpo, é mente.

Puta merda, nessas horas meu cérebro coça. Da uma vontade danada de encarar uma teoria daquelas que não se entende direito de primeira, nem de segunda. O que no meu caso não precisa ser muito complicada, o que facilita bastante encontrar uma.

O lado bom de brincar de ilha no meio da multidão é que as vezs eu tenho umas sacadas genias. A melhor delas em geral é resolver ir embora.

Mas outras coisas vem a mente, e as vezes são úteis.

Descobri numa dessas que tenho um buraco quadrado dentro de mim, que sempre tento preencher com pessoas redondas, ou de qualquer outra forma. Resultado, sempre fica um canto, uma beirada vazia. As vezes forço um pouquinho pra ver se cabe melhor. Mais ao cobrir um canto, outro se descobre.

Hoje eu tenho uma obsessão redonda para o meu buraco quadrado.

Há obsessões que são movidas pela vontade de preencher. E há as obsessões movidas pelo desejo de expandir. O problema é que eu dificilmente sei qual é qual. E em geral é brincando de ilha que eu descubro.

Esta noite eu brinquei um pouco de ilha, lambendo uma ferida quadrada, causada por uma pessoa redonda, e conclui satisfeito: Não há desejo que sobreviva ao Créu.